Distante demais

Distante diz tanto, diz muito, diz demais.

Quinta-feira, Janeiro 25

Pro-cura

As paredes estavam sujas. Levantei calmamente e tentei apalpá-las. Meus dedos estavam sujos. Girei, girei, girei. Procurei algum pequeno buraco de esperança. Tentativa frustrada. Procurei não procurar e dormi. Meu mundo estava manchado. As cores: brilhantes, vivas. Meus passos estavam serenos. Procurei não procurar, acordei assustada.

Domingo, Janeiro 7

Metamorfose de retalhos


Um toque. Um estouro. Uma porta entreaberta. A casa suspira calmamente. Sofás, cadeiras, estantes. Tudo transpira em silêncio. Eu corro. Tento perseguir algo indefinido. Paro. Olho para os dedos que querem escapar de minhas mãos. Sinto vontade de gritar. Metamorfose suave inicia mais um ano. Mais um amontoado de histórias que tecem uma gigantesca colcha de retalhos.

Segunda-feira, Dezembro 11

Da cor ao amarelo

Amarelou. O mundo.
A rosa.
Amarelou a cor dos dentes.
Amarelou o dia.
A lua, amarela.
A cara da menina, amarela.

Amarelou a dor do mundo.
O mundo surdo. Mudo. Marginal.
O corpo marginal amarelo.
Um todo rouco.
Um pouco morno.
Um suspiro.
Amarelo.

Amarelou a cor dos meus dedos, que choram...

Quarta-feira, Novembro 22

Tempo mulher me deu de presente um sonho



"A minha dor, não é a dor dela. A minha dor é Doriana e a dor dela é Adorela." (DJ Dolores)

A minha dor é minha. A felicidade é compartilhada. É como brincar de ser feliz. Ninguém percebe a brincadeira. Vamos correr no parque, mamãe, hoje acordei massa. Tá tudo decente! No mundo. No meu corpo, as horas passam. O tempo me arrasta e eu arranco os cabelos dele de tanto puxá-lo para o lado, para cima, para frente, para trás. Vamos, tempo, acorde. De repente, o susto: o tempo é masculino?! Por que será que algo tão fundamental em nossa vida é de raiz masculina. Modifico o meu tempo. Afeminizo ele. Ficou tão mais parecido comigo! Gente, acabaram os conflitos.

- Mamãe, acordei feliz hoje, a tempo me deu um presente durante o sonho.
- Não é"a" tempo, filhinha, é "o" tempo. É masculino.
- Se fosse masculino, eu não teria ganhado o presente, mãe. Poxa, que dificuldade para me entender!

Domingo, Outubro 22

Medo em dose


Uma dose. Em cima da mesa, o copo vazio esperava. Pacientemente, aguardava o momento de se tornar cheio. Pensava que só assim seria feliz. E o ar se foi. Veio a dose caprichada de bebida. O copo ficou radiante. A dose se foi. O copo voltou a esperar, vazio. E assim os dias se passavam, o copo continuava aquela dança silenciosa de medo e desejo. Um dia, a dose foi forte demais e derrubou o copo com ela. Caiu. Em cacos, misturava-se com o líquido amargo. Já não sabia separar o vazio do preenchimento. Eram uma coisa só, embriagos no chão de azulejo. Eram ar, vidro e cerveja.

Sexta-feira, Outubro 13

E se desatarem o nó?


Por um fio. Estamos sempre por um fio. A cada momento que passa, os fios se embaraçam, se atordoam. E vamos vivendo. Até o momento em que o desenrolar dos fios da vida se transforma em nó. Nó incolor. Acaba...

Segunda-feira, Setembro 18

O destino deseja você



Destino. Pedaço de papel colorido remexido e sem brilho. Destino de loucos, de incertos e intensos seres de luz. Engraçado tentar agarrá-lo. Ficamos como borboletas tontas e assustadas correndo atrás do invisível presente. Ele tem cheiro. Sim, o destino tem um odor acre. É estranho. Está sempre alí e não existe.

Desejo. Raízes. O desejo se assemelha a um grande emaranhado de raízes. Delas, pode brotar uma árvore forte, alta, majestosa. Pode também surgir uma pequena florzinha. Colorida. As raízes existem e dão chão. Elas são o chão. Desejo, tão incontrolavelmente nosso. Tão indescritivelmente perfeito.

Você. Um remexer insistente de destino e desejo. Um conflito constante entre o deve ser e o querer. O que acho que me pertence, é meu? E o que desejo de verdade? Difícil. Não existem respostas. Você é um atordoar de idéias e tempos confusos. Você é destino, desejo, vida.